Jovens mudam hábitos para viver mais de 100 anos

Foto: Fábio Vicentini/AT

Atividades físicas, sono tranquilo e alimentação mais natural são algumas das atitudes que ajudam as pessoas a ter vida mais longa

Mudar hábitos não costuma ser uma tarefa fácil para o ser humano. Apesar de muitos já saberem que exercícios regulares, alimentação saudável, redução do estresse e uma boa noite de sono contribuem para ter longevidade e, quem sabe, chegar aos 100 anos, nem todos colocam em prática.

Isso se reflete em números: 49,7% dos moradores de Vitória, por exemplo, têm excesso de peso, e 15,2% têm obesidade. Mas a reportagem de A Tribuna conversou com jovens que se dedicaram a uma nova rotina e mudaram os hábitos para ter mais saúde.

Um exemplo é o analista de infraestrutura Adryano Gomes, 30, que com dois anos perdeu 27 quilos ao malhar e comer de forma saudável. “Eu estava muito acima do peso, não tinha disposição para nada, taxas de colesterol e triglicerídeos altas. Hoje tudo mudou e minha autoestima está 100%. Quero ter qualidade de vida até ficar ‘velhinho’.”

Com histórico de enfarte na família, o enfermeiro Mayko Bertolo, 28, decidiu há dois anos se exercitar. “Hoje faço crossfit, corro, malho, além de cuidar da alimentação e do sono. Perdi 11% de gordura corporal em um ano. Estou me preparando para uma velhice saudável.”

Com a virada do ano, o analista de contas Jhonatan Carvalho, 22, começou a se exercitar e praticar esportes, como corrida e rapel.

“Perdi seis quilos, mudei também a alimentação, pois eu comia muita gordura, industrializados e doces. Com isso, melhorei minha qualidade de vida.”

A gerontóloga alemã, mestre em Políticas Públicas e Envelhecimento e diretora técnica do Centro Internacional de Longevidade no Brasil, Ina Voelcker, afirmou que estudos mostram a chance de se viver até 115 anos.

“Mas, para isso, é preciso comer saudável, se movimentar, claro, não abusar com álcool ou outras drogas, dormir o suficiente, cuidar das amizades e redes sociais, ter hobbies, guardar dinheiro, estudar e aprender sempre.”

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Unindo o útil ao agradável

O estresse fez o analista de comunicação Ricardo Porto, 25, passar a fazer ciclismo há dois anos.

“Eu estava sedentário, então decidi andar de bicicleta nos finais de semana há dois anos. Como o trânsito me trazia estresse, passei a ir de bicicleta de casa, em Cariacica, para o trabalho, em Santa Lúcia, Vitória.”

Ele chegou a emagrecer sete quilos. “Uni o útil ao agradável. Agora também economizo dinheiro e me sinto muito bem.”

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Dieta para reduzir taxas

A analista jurídico Ana Paula Pazolini, 29, buscou um nutricionista para se reeducar e reduzir as taxas de colesterol e triglicerídeos.

“Com meu comprometimento com dietas e exercícios, eu consegui reduzir as taxas, o percentual de gordura, passando a ter uma vida mais saudável. Perdi dois quilos e melhorei a definição dos músculos. Cortei o refrigerante, arroz, pão e reduzi muito os lanches dos finais de semana. Estou mais saudável e satisfeita com meu corpo.”

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Mais disposição com nova rotina

Ele foi uma criança acima do peso. Mas aos 20 anos decidiu levar a sério as mudanças de hábito e emagreceu 30 quilos. Hoje, o empresário Pedro Roque tem 30 anos.

“Desde a infância, luto contra a balança, aos 13 anos comecei a malhar. Mas foi aos 20 que mudei mesmo e de lá para cá emagreci 30 quilos. Passei a correr e fazer stand up, além de kit surf, jiu jitsu e ciclismo. E minha alimentação é bem natural, sem glúten e lactose. Estou mais disposto e sou mais confiante.”

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Comida da vovó ajuda o coração

A velha e boa comida da vovó, rica em verduras, legumes, grãos, temperos naturais e gorduras boas, como o azeite, é, segundo médicos e nutricionistas, a melhor receita para viver com saúde e cuidar do coração.

A médica Jordana Jantorno afirmou que a vida corrida prejudica a procura por bons alimentos. “Precisamos voltar à comida dos nossos avós, alimentos de verdade. A boa alimentação também é essencial para prevenir depressão: 80% da serotonina, hormônio do bem-estar, é produzido no intestino.”

A nutróloga da Unimed Sul Capixaba Karina Cassa reforçou a importância de reduzir o uso de sal e usar temperos naturais, como alho, cebola e ervas frescas e secas. “O excesso aumenta o risco para hipertensão arterial e doenças cardiovasculares.”

A nutricionista Gabriela Sampaio frisou que o ideal é sempre consumir alimentos da época.

Foto: Antonio Moreira/AT

“Evite alimentos com agrotóxico e fertilizantes químicos, que podem desencadear uma série de doenças, como o câncer. Uma boa alimentação é fundamental na manutenção da qualidade de vida e na preparação para uma velhice saudável e ativa.”

Outro ponto importante, segundo a nutricionista do Hospital Metropolitano Tatiana Lessa é comer em um ambiente tranquilo. “Hoje em dia, as pessoas comem correndo, vendo televisão ou ao celular e não mastigam bem. É preciso ter ao menos 15 minutos para comer, ajudando o trânsito intestinal.”

A nutricionista Juliana Parrini afirmou ainda que o ideal é excluir ou reduzir ao máximo o consumo de refrigerante e de industrializados e embutidos. “Com a alimentação saudável e a prática de exercícios, é possível evitar doenças, como obesidade, diabetes e câncer.”

O médico pós-graduado em nutrologia Wesley Schunk ressaltou a importância da água.

“Beber pelo menos de oito a 10 copos por dia é o ideal. Ela ajuda a hidratar o corpo e a pele, controlar a pressão, no hábito intestinal, entre outros.”

Para o geriatra da Medsênior e diretor científico da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia no Estado, Roni Mukamal, um dos hábitos mais difíceis de mudar é a alimentação. “A dieta do mediterrâneo é muito estudada e indicada por seus benefícios, que é a ingestão de verduras, legumes, grãos, oleaginosas, azeite e peixes.”

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Genética influencia 25% no surgimento de doenças

Estudos apontam que a genética influencia em 25% na morte da população. Por isso, médicos afirmam que melhores hábitos podem evitar diversas doenças. Especialistas reforçam que mesmo mudanças de atitudes na terceira idade podem trazer qualidade de vida.

A diretora técnica do Centro Internacional de Longevidade no Brasil, Ina Voelcker, afirmou que algumas doenças não podem ser evitadas. “Mas podemos diminuir o impacto que ela tem na vida da pessoa com bons hábitos e políticas, como as para reduzir a poluição.”

A endocrinologista do São Bernardo Hospital, Fabiana Melnik, ressaltou que pequenas mudanças levam a grandes benefícios.

“Tudo que o paciente mudar, mesmo que seja só tirar refrigerante, já vai ser bom. Aos poucos, ele pode aumentar as mudanças. Mesmo que ele tenha predisposição a diabetes, por exemplo, sua boa rotina dará mais qualidade de vida.”

O neurocirurgião com atuação em fisiologia humana José Augusto Lemos, 42, frisou que a longevidade é fruto do equilíbrio da saúde, ações sociais e setor financeiro.

“Nunca é tarde demais para começar, mas o ideal é buscar ajuda profissional em cada setor, como exercícios e alimentação. Quanto mais demora para começar, mais difícil e mais tempo leva para reverter algo que o estilo de vida ruim tenha causado.”

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Dicas

Praticar atividade física

É importante optar por atividades que a pessoa mais se adapta. Mas especialistas afirmam ser ideal praticar atividades aeróbicas, como corrida e natação. Trinta minutos ao dia, pelo menos três vezes na semana, já ajudam a evitar doenças cardiovasculares e colesterol alto. O exercício com peso, como musculação, ajuda a manter a massa magra.

Ter alimentação equilibrada

Dieta variada, com cinco porções de frutas, verduras e legumes – evitando gorduras, sal, açúcar e refrigerantes – reduz doenças. Quanto mais coloridos os alimentos no prato, mais nutrientes a pessoa vai consumir.

Praticar meditação

Estudos mostram que meditar ajuda a ficar mais atento, reduz o estresse, alivia dores e melhora os sistemas cardiovascular e imunológico.

Um bom sono melhora a imunidade e previne problemas. Foto: Divulgação

Ter sono de qualidade

Dormir cerca de oito horas por noite, sem barulho, em quarto escuro e com um bom colchão ou travesseiro ajuda a memória, melhora a imunidade e previne problemas cardíacos e cerebrais.

Beber água

O ideal é beber ao menos 2 litros por dia em temperatura ambiente para hidratar o corpo e as cordas vocais.

Fazer check-up

Deve virar hábito anual ir ao médico e fazer exames laboratoriais e mais específicos, de acordo com as indicações do profissional, segundo a idade e o sexo do paciente. Se houver doenças na família, é preciso fazer exames mais precocemente.

Consumir alimentos probióticos

O uso de alimentos probióticos com lactobacilos – que ajudam a produzir bactérias boas no estômago – auxilia a reduzir doenças. São encontrados em alimentos como leite e iogurte.

Não fumar nem ingerir bebidas alcoólicas

Quem não fuma nem ingere bebida alcoólica vive por mais tempo e com mais qualidade de vida, além de reduzir risco de doenças, como câncer.

Menos calorias

Ao diminuir o tamanho do prato e ingerir menos calorias, é possível prevenir doenças como a obesidade. Estudos mostram que dieta com quantidade exata para sobreviver aumenta a longevidade.

O sol é fonte de vitamina D. Foto: Divulgação

Tomar sol

O sol é uma grande fonte de vitamina D. Todos deveriam tomar sol pelo menos uma vez ao dia, sem protetor solar (que impede a absorção pela pele), antes das 9h e depois das 16h, por alguns minutos.

Usar protetor solar

Também deve ser usado todos os dias, com fator de proteção em geral 40 no rosto e 30 no corpo, e reaplicado a cada 3 horas. Se possível, ingerir cápsulas no verão que evitam envelhecimento precoce.

Cuidar da saúde emocional

Ter saúde emocional equilibrada, evitando estresse, ansiedade e depressão, é essencial. A depressão é fator de risco para o mal de Alzheimer, afeta a memória e o bem-estar. É preciso mudar a forma como se vê o mundo para evitar problemas.

Inserção social

Também é saudável estar inserido em vários grupos sociais. Ter amigos, bom relacionamento familiar, atividades culturais e de lazer são importantes para perceber que não está sozinho. Conversar com amigos é um tipo de terapia.

Ter horários regulares

Ter o mesmohorário para acordar, comer, fazer exercícios e dormir é essencial para o equilíbrio do corpo.

Fonte: Médicos e especialistas entrevistados.

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Cérebro tem de ser treinado

Foto: Rodrigo Gavini/AT

Trabalhar a mente é fundamental para ter o controle da própria vida e fazer as alterações necessárias, dizem os especialistas

Para conseguir mudar atitudes do dia a dia, especialistas enumeram diversas ações, como disciplina, força de vontade, otimismo, equilíbrio espiritual. Mas afirmam que é necessário treinar o cérebro para conseguir modificar a rotina.

A especialista em autoconhecimento Heloísa Capelas afirmou que uma forma de fazer esse treinamento é fechar os olhos e imaginar-se, realizando a atividade que deseja incorporar, como comendo uma alimentação leve.

“Atribua a essa imagem sensações positivas. Veja-se feliz, animado e satisfeito. Repita esse processo algumas vezes. Quando estiver praticando a atividade que imaginou, seu cérebro vai ‘resgatar’ essas emoções e será mais fácil se manter comprometido.”

O psicólogo e gestalt-terapeuta Enéas Lara frisou que ter consciência de algo, por si só, não produz energia suficiente para a mudança.

“A mente, junto com o sentimento, ao ficarem incomodados de maneira significativa, podem facilitar a substituição de um hábito ruim. É preciso saber e sentir ao mesmo tempo o incômodo”, afirmou.

A psicóloga e diretora da Psico Store, Martha Zouain, ressaltou que a mudança requer muita vontade e disciplina. “Repetir mantras, como ‘estou dedicado’, ‘eu consigo’, pode ajudar. É preciso ser otimista e ter atitudes para conquistar seus objetivos.”

A psicóloga Raquel Barretto, doutoranda em Ciências da Saúde, lembrou a necessidade do equilíbrio espiritual. “Ele é o encontro com as suas crenças interiores. Não falo de religião mas sim de um ponto de sustentação interno, que ajuda o indivíduo a ter equilíbrio na sua vida.”

A psicóloga Maria Cristina Ramos disse que muitos fazem acordos consigo mesmos incapazes de serem cumpridos.

“Trabalhar a mente é fundamental, porque se a pessoa não se conhecer, descobrir seus talentos, não se acreditar capaz, como vai ter o controle da própria vida e fazer as alterações necessárias?”

A psicóloga e coach Sarah Rosado acredita que, para buscar o equilíbrio emocional, deve-se balancear a razão e a emoção. “Não se deve agir por impulso e não se deve deixar as emoções o abaterem. Sempre existe a possibilidade de pensar antes de agir.”

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Algumas dicas

Saber e sentir

Para que uma mudança aconteça, é preciso trabalhar a mente. Quando ela e o sentimento ficam incomodados de maneira significativa, é possível substituir um hábito ruim por um mais saudável. O termo “conscious” (estar consciente) foi substituído por estar “aware” (saber e sentir, ao mesmo tempo, o incômodo).

É preciso fazer a disciplina se tornar hábito: Quem faz ginástica duas ou três vezes por semana, por exemplo, precisa ter disciplina. Mas se fizer todos os dias terá um alívio ao realizar a tarefa, por se tornar hábito.

Inteligência emocional

É o que ajuda a lidar de maneira mais adequada com as sensações e sentimentos. A ciência já comprovou que emoções como raiva, rancor e ódio podem ser associadas ao surgimento de diversas doenças, inclusive ao câncer. Por isso, é preciso aprender a lidar com os próprios sentimentos. Uma vida mais saudável requer menos ressentimento, ou seja, requer que tenhamos a capacidade de deixar o passado para trás, de parar de sentir de novo um acontecimento que já se encerrou.

Fonte: Especialistas entrevistados.

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Correr prolonga a vida

Julio Cesar fala sobre a prática de exercício. Foto: Divulgação

Cientistas americanos descobriram que correr é a atividade física que tem o maior efeito no aumento da expectativa de vida.

Segundos os cientistas, os corredores tendem a viver três anos a mais do que os não praticantes, mesmo que esta seja uma prática esporádica realizada por indivíduo que consuma álcool, tabagista e em sobrepeso.

“Uma hora de corrida alonga a expectativa de vida em sete horas. No entanto, os ganhos atingem um limite no benefício em três anos a mais de longevidade”, explicou o fisioterapeuta e coordenador científico do Núcleo Especializado em Fisioterapia do Esporte Marcelo Dalla Bernardina.

A educadora física e responsável pela Azen Academia, Gisely Machado, citou ainda estudos com exercícios de alta intensidade.

“As pesquisas mostram que ao treinar por 30 minutos com alta intensidade há mais resultado do que ficar 1h30 na academia, por exemplo.”

O educador físico da Unimed Vitória Julio Cesar de Oliveira ressaltou que o ideal é praticar o exercício que mais gosta por 50 minutos três vezes por semana ou ainda 30 minutos sendo cinco vezes por semana, segundo estudos.

De qualquer forma, os especialistas são unânimes em afirmar que as atividades físicas são fundamentais para aumentar a expectativa de vida, além de proporcionar uma vida saudável.

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Aplicativo ajuda a turbinar a mente em qualquer idade

Thiago Gusmão: “A música cativa”. Foto: Divulgação

Uma das atitudes muito indicadas por médicos para ter longevidade e retardar doenças na terceira idade é manter o cérebro em atividade. Buscar estar sempre em processo de aprendizado também é citado como indispensável.

O clínico geral, professor da USP e criador do aplicativo Mente Turbinada, Paulo Camiz, salientou que a ferramenta foi criada pensando nos idosos.

“Mas percebemos melhores resultados nas crianças e nos idosos. Há vários jogos que treinam diferentes áreas do cérebro, como a atenção, memória, raciocínio e linguagem. Isso pode retardar o aparecimento do Alzheimer.”

Segundo o especialista em aprendizagem e idealizador do projeto Estudar e Aprender, Leandro Piccini, estudos mostram que o hábito de aprender algo novo todos os dias ajuda a melhorar a memorização e raciocínio. “Dedicar uma a duas horas por dia para estudar algo novo auxilia muito a manter um cérebro saudável.”

O neurologista infantil Thiago Gusmão frisou que aprender algo relacionado à música, como um instrumento, potencializa a inteligência em até 20% na infância.

“A música cativa o sistema límbico do cérebro, que atua no humor, o que ajuda na socialização e a reduzir estresse e depressão infantil”.

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Dança com meditação para prevenir o estresse

Dança e meditação juntos. Impossível? A psicanalista e terapeuta Grazieli Marchito afirma que não. As danças meditativas são uma das terapias alternativas incluídas no Sistema Único de Saúde (SUS) este ano e consistem em uma prática que trabalha o equilíbrio do corpo, da mente e das emoções.

“Essa dança trabalha o movimento do corpo por meio da atenção ao som da música. Isso ajuda a nos empoderar. Enquanto estamos dançando e cantando, não pensamos em outras coisas. Então sua mente está em estado de equilíbrio, reduzindo o estresse.”

Segundo Grazieli, a prática encanta porque é simples. “Ela traz alegria, permite vivenciar o amor e a compaixão, nos trazendo a novas percepções internas. Foi criada pela dançarina Prema Dasara, que está dentro da linhagem do budismo tibetano, mas não se foca em religião e sim na espiritualidade.”

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Reportagem especial de Kelly Kalle para o jornal A Tribuna do dia 09/07/2017

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