Sexo sem camisinha espalha superbactéria

Camisinhas em farmácia: queda no uso de preservativo, incluindo para sexo oral, está ajudando
a espalhar a superbactéria da gonorreia pelo mundo, segundo alerta emitido pela OMS. Foto: Dayana Souza/AT

Organização Mundial da Saúde alerta que gonorreia tem criado forte resistência a antibióticos e está cada vez mais difícil de tratar

A queda no uso de camisinha, incluindo para o sexo oral, está ajudando a espalhar uma superbactéria da gonorreia pelo mundo, e a torná-la cada vez mais difícil de tratar.

De acordo com alerta emitido ontem pela Organização Mundial da Saúde (OMS), há casos isolados em que a doença chegou a ser considerada intratável em pacientes, como na Europa e no Japão.

A OMS alertou que a infecção sexualmente transmissível (IST) – responsável por infertilidade na mulher – está rapidamente desenvolvendo uma forte resistência aos antibióticos.

Para um dos produtos tradicionalmente usados, o ciprofloxacin, a resistência foi registrada em 97% dos países avaliados pela Organização. Segundo eles, cerca de 78 milhões de pessoas são contaminadas a cada ano pela doença.

Em um levantamento realizado em 77 países, a entidade constatou que a resistência é “generalizada”.

“Trata-se de uma bactéria muito inteligente e, cada vez que um novo antibiótico é introduzido, ela se torna mais resistente”, disse Teodora Wi, responsável da agência da ONU para Saúde.

Em apenas 15 anos, a comunidade médica já foi obrigada a mudar de tratamento três vezes diante da ineficiência dos produtos e da resistência desenvolvida. Hoje, a agência de saúde considera que o cenário é “muito preocupante”.

Se a infecção pode afetar as partes genitais, é o impacto na garganta, infectada no sexo oral, que mais preocupa no que se refere à capacidade da doença em sofrer uma mutação. A resistência aos remédios seria ainda maior por causa da mistura que a bactéria identificaria com o tratamento contra uma infecção regular da garganta.

Incidência

A ginecologista do Centro de Referência de IST da Prefeitura de Vitória e técnica da coordenação de IST e Aids da Secretaria de Estado da Saúde, Bettina Moulin Coelho Lima, afirmou que no Estado há muitos casos ainda de gonorreia, mas no País não há casos de superbactérias descritos.

“No Espírito Santo, o ciprofloxacin ainda é a primeira escolha no tratamento, e a gonorreia é uma bactéria relativamente fácil de tratar. Mas sabemos que em alguns estados, como no Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais, já é o ceftriaxona, que é injetável.”

Ela enfatizou que é preciso se proteger em todas as formas de sexo, mesmo no oral. “Infelizmente, as pessoas estão deixando de usar camisinha.”

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Teste de HIV a venda nas farmácias

Sexualmente transmissível, o vírus da Aids, o HIV, tem pela primeira vez o teste disponível em farmácias. No Estado, o novo produto, que detecta em até 20 minutos a presença do vírus, chegou na última segunda-feira (10).

Chamado de Action, o produto da empresa Orange Life tem o preço variando entre R$ 60 e R$ 70. Ele detecta a presença dos anticorpos contra o vírus HIV a partir da coleta de gotas de sangue, que pode ser feita pela própria pessoa.

A embalagem contém dispositivo de teste, um líquido reagente, uma lanceta para furar o dedo, um sachê de álcool e um capilar (tubinho para coletar o sangue).

De acordo com a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), o teste demonstrou sensibilidade e efetividade de 99,9%. No entanto, só pode indicar a presença do HIV após 30 dias do contato com o vírus por meio de uma relação sexual ou compartilhamento de agulha, por exemplo.

Se o resultado der positivo, recomenda-se confirmá-lo com um teste de laboratório. Até o momento, testes de HIV eram feitos somente com intermédio de profissionais de saúde em laboratórios.

O gerente de compras da rede de Farmácia Mônica, Renato Vietchesky, afirmou que segunda-feira os testes começara a ser vendidos nas unidades de Campo Grande, Laranjeiras, Aracruz e Cachoeiro de Itapemirim.

“O objetivo do teste é facilitar e agilizar a descoberta para que as pessoas possam iniciar o tratamento de forma precoce.”

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Hospitais vão limitar uso de antibióticos

Pesquisador manipula medicamento: mudança em protocolo para uso de antibióticos em tratamentos. Foto: Divulgação

As superbactérias têm se tornado um assunto cada vez mais preocupante entre médicos, pois muitos antibióticos já não são mais eficazes no tratamento de doenças atualmente, levando a bactérias multirresistentes.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), até 2050, organismos resistentes vão matar por ano 10 milhões de pessoas no mundo, número maior que o câncer. Por isso, hospitais criaram medidas para reduzir o uso de antibióticos.

O chefe do Controle de Infecção Hospitalar do Hospital Metropolitano, Alexandre Rodrigues, explicou que há quatro pilares para evitar superbactérias: higienização das mãos; limpeza de ambiente; medidas de precaução de contato e gerenciamento do uso adequado dos antimicrobianos.

“Adotamos medidas que garantam maior colaboração de farmacêuticos para o ajuste de dose de antimicrobianos de acordo com cada indivíduo, elaboração de protocolos com doses mais altas no início do cuidado de pacientes graves e redução do tempo de uso, baseada em experiências de sucesso.”

A enfermeira especialista em infecção hospitalar do Metropolitano Marcilany Coura é uma das idealizadoras da “Operação Mãos Limpas”, campanha com funcionários das Unidades de Terapia Intensiva adulta e cardiovascular.

“O objetivo é dar uma assistência mais segura aos pacientes e, consequentemente, índices de infecção por bactérias ainda menores.”

A infectologista responsável pela Comissão de Controle de Infecção Hospitalar do São Bernardo Apart Hospital, Marina Malacarne, contou que é feita planilha onde todo antibiótico novo prescrito é colocado e o dado é enviado a ela. “Quando a medicação não está apropriada, converso com o médico. Ainda oriento sobre o tempo de uso.”

Profissionais de 90 hospitais do País se reuniram no Hospital do Coração (HCor), em São Paulo, na última semana, para aprender sobre o Programa de Manejo Antimicrobiano, que promove o uso consciente de antibióticos para diminuir a resistência bacteriana.

“O sistema nos ajuda a descobrir os micróbios mais frequentes, quais antimicrobianos têm melhores resultados. Com isso, foram reduzidos em cerca de 60% o uso de antibióticos e antifúngicos na UTI Pediátrica”, explicou o infectologista Pedro Mathiasi.

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Medidas de prevenção e contenção

Hospital Metropolitano

– Pilares

Existem quatro pilares incorporados no hospital para um maior controle de resistência bacteriana e infecções: higienização das mãos; limpeza de ambiente; medidas de precaução de contato; e gerenciamento do uso adequado dos antimicrobianos.

– Medidas

Foram Adotadas medidas que garantam maior colaboração de farmacêuticos para o ajuste de dose de antimicrobianos de acordo com cada indivíduo, elaboração de protocolos com doses mais altas no início do cuidado de pacientes graves e redução do tempo de uso, baseada em experiências de sucesso.

Também há orientação de cirurgiões, anestesistas, entre outros, que de modo geral o uso de antibióticos em profilaxia cirúrgica deve ser feito apenas no ato da cirurgia e não ser mantido por vários dias. Além disso, foi ampliada a qualificação de profissionais da área de saúde no manejo adequado de antimicrobianos.

Cultura de bactérias: identificação precoce dos pacientes infectados. Foto: Fabian Bimmer / Reuters – 02/06/2011

Hospital Meridional

Estabelece medidas de prevenção e contenção de disseminação de bactérias multirresistentes. Desde a prescrição de antimicrobianos de amplo espectro é orientada por infectologistas até outros momentos importantes, como identificação precoce dos pacientes infectados, através de culturas de vigilância e instituição de barreiras para a disseminação das bactérias identificadas.

São Bernardo Apart Hospital

A primeira estratégia do hospital é a higienização das mãos, evitando, assim, a contaminação cruzada. Outra estratégia é a manutenção dos isolamentos e precauções, principalmente precaução de contato no caso de superbactérias.

Para limitar o uso de antibióticos, é feita uma planilha com a farmácia do hospital, onde todo antibiótico novo prescrito é tabulado nessa planilha e enviado para a Comissão de Controle de Infecção Hospitalar. Os profissionais acompanham os prontuários de todos os pacientes, avaliam e modificam a medicação e seu tempo de uso, se necessário.

HCor (São Paulo)

– Implantação

Foi desenvolvido o projeto “Antimicrobial Stewardship Program (AMS)”, da MSD, que significa Programa de Manejo Antimicrobiano, que tem como objetivo promover o uso consciente de antibióticos para diminuir a resistência bacteriana. O projeto foi realizado em 110 hospitais ao redor do País e na última semana mais 90 hospitais realizaram treinamento para implantá-lo. Até o final de 2017, espera-se que 250 instituições sejam impactadas.

Com a implementação, será possível mapear o tipo de bactéria que circula em cada ambiente, proporcionando tratamento adequado e cura efetiva aos pacientes, além da diminuição da resistência aos antibióticos existentes no mercado.

– Resultados

Na UTI do HCor, o uso de antibióticos diminuiu entre 15% e 25% dos casos. Já a redução dos antifúngicos foi de 25%. Na UTI pediátrica, foi reduzido o uso de antibióticos e antifúngicos em 57% e 60% respectivamente.

Fonte: Instituições consultadas.

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Reportagem especial de Francine Spinassé e Kelly Kalle para o jornal A Tribuna do dia 08/07/2017

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