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sexta-feira 20 janeiro 2017
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Tribuna Livre: A tolerância como meio e fim

José Antonio Martinuzzo

José Antonio Martinuzzo é jornalista, doutor em Comunicação, pós-doutor em Mídia e Cotidiano, professor na Ufes. Foto: Divulgação

Por José Antonio Martinuzzo

“Questionando-se sobre o Tempo, Santo Agostinho, em suas Confissões, afirma que temos apenas o presente – passado e futuro são memória e projeções atualizadas no correr dos dias. Nesta divisa dos anos, posto-me, pois, a inventariar o que passou para projetar o que virá.

Sigo em companhia de Gramsci, combinando o otimismo da esperança com o pessimismo da razão. Coloco os óculos da racionalidade para fazer um balanço de 2016 e me visto com as asas da esperança para desejar 2017.

O ano em término fixa a triste marca da intolerância. Intolerância como palavra recorrente a temperar com um amargor nauseante as conversas e as pausas para pensar a vida. Intolerância como atos de violência simbólica e física a mobilizar uma existência de espantosa incivilidade aqui e acolá, aonde quer que se vá, por interfaces digitais, terra, mar e ar.

A vida não se fez apenas de tragédias, mas como não notar desde as guerras de posts no cotidiano dos territórios das redes sociais on-line, passando pelos crimes e assassinatos hediondos por preconceitos vários, até as guerras dos campos de batalhas que matam milhares e põem outros milhares a marchar sem rumo.

De qualquer ponto aleatório conectado à internet até às surreais trincheiras da morte, a intolerância grassa como palavra-chave de um mundo sem uma narrativa de avanço civilizatório a dinamizá-lo. Parece que engatamos marcha à ré e estamos retrocedendo aos tempos da pré-política, anteriores ao século VI a. C., quando a Grécia começou a inventar a política.

Não à toa, Aristóteles afirmava que a política é a nobre atividade por meio da qual os homens decidem as regras para a sua existência, assim como estabelecem os objetivos que buscarão coletivamente. Regras comuns? Coletividades? Puro estranhamento neste mundo de frágeis, egoísticas e solitárias conexões!

Nada mais letal para a vida política, aquela que assegura dignidade a todos indistintamente, do que as intolerâncias. Se a existência politicamente organizada preconiza a fraternidade na diferença do ser, a liberdade na divergência do pensar e a igualdade de toda a diversa humanidade, as intolerâncias centram-se no individualismo, no egoísmo, no despotismo, no arbítrio, e em numerosas distinções preconceituosas.

Voltaire, em Tratado sobre a Tolerância, sacramentou: “O direito da intolerância é absurdo e bárbaro; é o direito dos tigres, e bem mais horrível, pois os tigres só atacam para comer, enquanto nós exterminamo-nos por parágrafos”. Norberto Bobbio, em Elogio da Serenidade, é definitivo: “Na realidade, o único critério com base no qual se pode considerar lícita uma limitação da regra da tolerância é o que está implícito na ideia mesma da tolerância, que se pode formular brevemente do seguinte modo: todas as ideias devem ser toleradas, menos aquelas que negam a ideia mesma da tolerância”.

Como a História não tem destino, uma vez que o futuro é uma jornada que se vislumbra no hoje, considerando-se a viagem até aqui e o percurso que podemos desejar, resta o otimismo da esperança de que podemos inventar um 2017 diferente. E do inventário de 2016 resta que devemos nos fixar na ideia da tolerância. A alternativa é afundarmos ainda mais na barbárie das trevas do ódio a sombrear a aventura da vida. Que apostemos, pois, a cada dia, na exuberância da fraternidade, fundada na lucidez, na serenidade e na compaixão.

(*) José Antonio Martinuzzo é jornalista, doutor em Comunicação, pós-doutor em Mídia e Cotidiano, professor na Ufes.

A seção Tribuna Livre sai diariamente em A Tribuna.

Essa coluna foi publicada no dia 1º de janeiro.

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