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terça-feira 22 agosto 2017
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Currículos com criatividade para conquistar o empregador

Como empresas estão recebendo muitos currículos, avaliadores prestam mais atenção em detalhes que fazem diferença na escolha

Foto: Fábio Vicentini/AT

Nem todo mundo pode enviar o currículo em uma garrafa de refrigerante ou dentro de um hambúrguer. E nem sempre é isso que os recrutadores esperam. Mas estes são exemplos extremos de como o antigo padrão do currículo está sendo modificado nos últimos anos.

Com o desemprego alcançando 14 milhões de brasileiros, são muitos os candidatos no mercado. E todos querem chamar a atenção.

“Nós recebemos milhares de currículos. Em média, o avaliador gasta 6 segundos com cada, mas quando tem algo diferente, tende a atrair a atenção por mais tempo”, afirmou o psicoterapeuta e consultor da Acroy, Elias Gomes.

Segundo ele, o diferencial não precisa ser exagerado: uma cor ou uma formatação já podem fugir do tradicional. “Estamos acostumados com um formato de texto e layout comum. Qualquer detalhe pode trazer outra comunicação”.

Com a valorização das habilidades comportamentais, a psicóloga e recrutadora Daliane Hubner, da Kato Consultoria, acredita que a criatividade no currículo vai ganhar cada vez mais espaço.

“Esse documento customizado pode trazer a personalidade da pessoa, a cara dela enquanto profissional. Já passa uma impressão para o recrutador. Uma empresa que busca um perfil de inovação e modernidade, vai chegar uma hora que o currículo padrão não vai mais atender, vai ser ignorado”.

De acordo com Daliane, áreas de marketing, publicidade, arte, design, comunicação e tecnologia são as mais abertas a essas inovações, mas é preciso ter cuidado.

“Precisa deixar as informações muito claras para não confundir o recrutador, ter foco no conteúdo e saber bem o perfil da empresa para qual está enviando para não acabar passando vergonha”.

Para não errar, a professora de arte publicitária e design Aparecida Torrecillas indica o minimalismo e a autenticidade. Além disso, se inspirar na internet é bom, mas um modelo pronto pode ser má ideia.

“Quem mistura poucos tipos de fontes e cores corre menos riscos. Escolha algum diferencial e trabalhe nele, descubra seu estilo. Um formato pronto pode ter efeito contrário. Se você quer mostrar ser criativo, por que copiar?”

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Coerência por vaga desejada

Martha Zouain reforça necessidade de haver coerência entre a estratégia e a vaga. Foto: Divulgação

Por definição, o objetivo do currículo é atrair o recrutador para que o candidato seja chamado para uma entrevista. Para que isso ocorra, é preciso tomar cuidado com a empresa na qual vai se candidatar.

Segundo a psicóloga e diretora da Psico Store, Martha Zouain, é preciso analisar se há coerência entre a estratégia de aplicação e a vaga aberta. “Algumas áreas ainda exigem formalidade e discrição. Quem ousar pode ser rejeitado”.

Os setores jurídico e de finanças, por exemplo, podem oferecer resistência a sair dos padrões. Outro ponto a ser considerado, segundo Martha, é o sistema de cadastro para seleções on-line, onde o candidato preenche cada campo.

“O currículo inovador pode ser válido para algumas vagas pontuais mas, na maioria das vezes, vai ser por meio de sites mesmo. Nesses casos, o currículo deve ser focado em realizações e competências”.

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Falta de dados elimina 25% dos concorrentes

Teixeira: currículo deve ser adaptado ao cargo que a pessoa se candidata. Foto: Rodrigo Gavini/AT

Mesmo criativo, um currículo pode ser comprometido por deslizes que parecem pequenos, mas contam muito, como a falta de informações básicas, má organização e até mesmo erros de português.

Segundo o CEO da Heach Recursos Humanos, Elcio Paulo Teixeira, 25% dos candidatos acabam fora da seleção por falta ou falha já nas informações de contato.

“É preciso cumprir os requisitos essenciais, como manter os dados pessoais atualizados. Um quarto das pessoas que se candidatam a gente não consegue contatar, aí acabam abrindo e fechando a oportunidade na mesma hora”.

Outro ponto em que os concorrentes deixam a desejar, segundo ele, é na personalização dos currículos. “Deve ser adaptado para cada atividade que se candidata. Não adianta ser super criativo e mandar o mesmo para todo mundo. Pensar especificamente na vaga ajuda no fortalecimento das competências, se destaca”.

Os chamados “marcos de sucesso”, como apontou Elcio, são mais uma forma de expor suas experiências e habilidades de modo atraente.

“Se você conseguiu implementar alguma melhoria, isso deve ser destacado, inclusive com estatísticas que comprovem”.

O CEO ainda indica acrescentar no histórico profissional atividades voluntárias e trabalhos sociais, que demonstram engajamento, responsabilidade e competência, mesmo que de forma indireta.

Ainda que uma parcela tenha passado a adotar a ideia, foto no currículo é uma das coisas que mais eliminam. Pesquisas indicam que o índice de rejeição pelo uso da imagem pode chegar a 88%.

A consultora Milie Haji, da Cia de Talentos, ressaltou que, mesmo sendo uma ferramenta usada há tanto tempo, as pessoas ainda têm muitas dúvidas e pecam bastante ao montar o currículo.

“Às vezes acabam esquecendo de colocar informações cruciais, como objetivo profissional. Mesmo que não pretenda um cargo específico, deixar muito genérico demonstra falta de foco”.

Segundo ela, uma boa saída para minimizar os erros é trocar o currículo, depois de pronto, com um colega, para revisar.

“Terminou de fazer o currículo, pede para o amigo dar uma olhada, revisar, até mesmo no português. Imagina ter um ótimo candidato, mas que comete erros e é descuidado no próprio currículo”.

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Competências, não diplomas”

Jeff Weiner, CEO do LinkedIn: “O funcionário ideal vai além do diploma”. Foto: Divulgação

“Competências, não diplomas”. É com esse mantra que o CEO do LinkedIn, Jeff Weiner, passou a conduzir a busca por talentos na sua empresa de tecnologia. Ele explicou como o recrutamento de sua companhia mudou nos últimos anos em uma conferência na Universidade do Arizona, nos Estados Unidos.

Segundo Weiner, a maioria das empresas prioriza, em seus processos seletivos, candidatos formados em certas instituições, com diplomas de “prestígio”.

Mas, com a velocidade em que as coisas mudam atualmente, o CEO destacou que boa parte do que se aprende na faculdade pode se tornar obsoleto da noite para o dia. Sendo assim, o funcionário ideal precisa de competências que transcendem aquilo que o diploma universitário oferece.

“Há qualidades que tendem a ser completamente negligenciadas quando pessoas analisam currículos. Mas, cada vez mais, nós percebemos que são justamente essas competências que fazem a maior diferença”.

Além das empresas estarem perdendo talentos, Weiner ressaltou que isso influencia o outro lado: os candidatos passam a “se vender” mais por seus certificados do que suas qualidades.

E isso se reflete na hora de montar o currículo, onde a maioria gasta mais tempo e espaço só com a formação e esquece as habilidades. “Não se trata de analisar apenas competências em detrimento dos diplomas, mas expandir nossa perspectiva para além deles”.

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Reportagem especial de Caroline Mauri para o jornal A Tribuna do dia 06/08/2017




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