Search
terça-feira 22 agosto 2017
  • :
  • :

Insônia faz 300 mil tomarem remédio no Estado

Especialista em sono, Jéssica Polese aponta a insônia como principal problema de sono. Foto: Rodrigo Gavini/AT

Dados da Pesquisa Nacional de Saúde, realizada pelo IBGE, revelam ainda que cerca de 1 milhão de pessoas sofrem com problemas na hora de dormir

A hora de dormir é momento de relaxar e recuperar as energias para o dia seguinte. Só que para algumas pessoas isso tem se traduzido em um transtorno, já que enfrentam dificuldades com a falta de sono. Muitos recorrem a remédios contra a insônia.

Dados da última Pesquisa Nacional de Saúde, realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), revelam que o número de pessoas que usam medicamentos para dormir no Brasil equivale a 7,6% da população.

Com base nesse percentual, é possível dizer que, no Estado, pelo menos 300 mil tomam medicamentos contra insônia. Mas o número de quem enfrenta essa doença é ainda maior: cerca de 1 milhão.

A pneumologista e especialista em medicina do sono Jéssica Polese disse que o número é crescente.

“A insônia é o principal problema de sono, atingindo cerca de 40% ou até mais da população no Estado, seguida da apneia do sono, que atinge 30% e, em algumas faixas etárias, chega a até 50%.”

A principal causa dos distúrbios de sono, segundo ela, é a ansiedade que pode ser desencadeada pelo uso exagerado das tecnologias.

Já Simone Prezotti, pneumologista e especialista em medicina do sono, observou que existe um consumo elevado de remédios para dormir e que até mesmo pessoas sem indicação recorrem a esses medicamentos.

“A pessoa começa a tomar o remédio, que deveria ser por um tempo determinado, mas permanece por muito tempo. Vai a outras especialidades, aproveita e pega a receita e, com isso, usa indiscriminadamente esse medicamento.”

E completou: “O uso prolongado leva a uma dependência química e necessidade de doses cada vez maiores. É preciso diagnóstico preciso do problema, nem sempre há necessidade de medicamento.”

A doença pode ser classificada em dois tipos, segundo a neurologista Juliana Starling. A insônia crônica, que dura mais de 30 dias, e a aguda, geralmente associada por estresse ou problema de ansiedade.

“A insônia pode acontecer em três etapas do sono. A inicial, que é quando a pessoa tem dificuldade para começar a dormir; a intermediária, que é quando a pessoa dorme e acorda durante a noite; e a terminal, que é quando a pessoa acorda e não consegue mais dormir.”

Ela explicou ainda que nem sempre dormir pouco significa insônia. “Há um grupo de pessoas que fica muito bem dormindo pouco durante a noite.”

.

.

Idosos têm mais problemas de sono

Idosos precisam de dormir menos horas por noite que adultos. Foto: Reprodução.

Se comparar as faixas etárias, são os idosos que estão mais propensos de ter insônia, segundo revelaram os médicos.

A medida que se envelhece o tempo de sono diminui, de acordo com o coordenador da residência de Medicina da UVV e vice-presidente da Associação Capixaba de Medicina Família e Comunidade, Diego José Brandão.

Segundo ele, uma criança precisa de cerca de 10 a 12 horas de sono para ter uma boa rotina.

“Já o idoso, com 5 ou 6 horas de sono já é suficiente. O que acontece é que existe uma ditadura social da hora de dormir. Então, o idoso dorme cedo, acorda no meio da noite e acaba achando que está com algum problema. Por isso, é importante o médico ficar atento.”

A pneumologista e especialista em medicina do sono Jéssica Polese complementou que, no caso das crianças, o recém-nascido dorme 20 horas por dia e aí vai diminuindo com o passar do tempo.

Ela deu outro exemplo. “Uma criança na faixa de 5 anos de idade teria que dormir cerca de 10 horas. Mas infelizmente hoje nossas crianças estão dormindo muito menos, pois têm acompanhado a rotina dos pais. Isso está errado.”

Já as crianças entre 10 e 11 anos, o indicado é dormir entre oito a nove horas diárias. “Na adolescência, elas precisam dormir até mais, cerca de nove horas e meia.”

Estudos identificaram que 50% dos idosos que vivem com a família têm dificuldade para dormir. Esse número sobe para 65% no caso dos idosos que vivem em instituições de longa permanência.

“Quando as dificuldades para uma boa noite de sono acontecem, muitos idosos se automedicam e é aí que moram vários perigos para a saúde, pois o fato de não estar dormindo bem pode ser sinal de alerta para várias doenças, inclusive as doenças como insônia e apneia do sono”, disse a geriatra Gabriela Bortolon.

Ela destacou que existem mais de 100 tipos de distúrbios do sono, com diferentes tratamentos. “Se a dificuldade para uma boa noite de sono passar de 30 dias, um médico deve ser procurado”, alertou.

Geralmente as dificuldades de sono no idoso são multifatoriais e não apenas por uma alteração primária do sono. Um exemplo disso é a insônia associada ao uso de medicamentos que controlam a pressão arterial, como os diuréticos e betabloqueadores.

.

Brigo com a noite. Ela é muito longa”

Maria do Carmo conta que luta contra a noite. Foto: Rodrigo Gavini/AT

Há oito anos a rotina da dona de casa Maria do Carmo Caus, de 70 anos, é a mesma: entre 20h30 e 21 horas ela toma remédio na tentativa de ter uma noite tranquila.

Mas, mesmo com o uso do medicamento, ela assegurou que isso não é possível.

“Brigo com a noite. Ela é muito longa. Durmo até 3 horas da madrugada, mas depois disso eu acordo. Viro o travesseiro de lado, procuro posições confortáveis para o corpo, conto cavalinho (risos), mas de nada adianta.”

Maria do Carmo disse que já tentou trocar de remédio, mas de nada adiantou. Ela tentou fazer exercícios físicos, mas disse que não melhorou a qualidade do sono. “Sou muito ansiosa e achei até que fico mais agitada.”

A especialista em medicina do sono Jéssica Polese sugeriu que ela faça exercícios físicos pela manhã e não antes de dormir.

.

Ter hora para dormir e acordar beneficia o sono. Foto: Reprodução

Distúrbios do sono

Os distúrbios do sono mais comuns são:

  • – A Insônia, que prejudica a capacidade de adormecer ou, ainda, de permanecer dormindo durante toda a noite. Pessoas com insônia geralmente começam o dia já se sentindo cansadas, têm problemas de humor e falta de energia;
  • – O Transtorno Comportamental do Sono REM; caracterizado por pesadelos nos quais a pessoa grita, chora, dá socos ou pontapés;
  • – A Síndrome da Apneia Obstrutiva do Sono. Nessa síndrome observa-se uma parada respiratória durante o período do sono, levando a vários despertares breves e repetidos;
  • – E os Distúrbios do Sono nas doenças neurodegenerativas, como Parkinson e Alzheimer.

Dicas para dormir bem

Existe uma série de protocolos e dicas que são usadas para garantir uma noite de sono reparadora, entre os quais:

  • – Usar o quarto e cama apenas para dormir e manter atividades sexuais.
  • Aumentar a exposição à luz solar.
  • Criar uma rotina com horários regulares para dormir e acordar.
  • Não beber ou comer excessivamente perto do horário de dormir.
  • Adequar o ambiente para o sono, deixando-o escuro, confortável e com temperatura amena.
  • Evitar barulhos.
  • Diminuir o consumo de cafeína, álcool e nicotina.
  • Atividade física deve ser feita, porém até três horas antes de dormir.
  • Evitar os cochilos à tarde e no início da noite.
  • Limitar a ingestão de líquidos a noite.
Fonte: Médicos consultados

.

Alerta para medicamentos

Médicos alertam sobre riscos da automedicação. Foto: Reprodução

O uso de medicamentos de forma indiscriminada para dormir pode causar sérios riscos de saúde, como Alzheimer, demência e outros, segundo os médicos. Por isso, eles dizem que é preciso cuidado com os remédios da moda para a insônia.

De acordo com a neurologista Juliana Starling os remédios mais comuns, que muitas vezes são usados de forma indevida, são os diazepínicos, que são de tarja preta. “Isso representa risco muito grande para a saúde se não for bem recomendado”, disse.

Ela explicou ainda que há reposição de melatonina, que é a substância conhecida como hormônio do sono.

“Ele só é produzido quando não há incidência de luz nos olhos. Quando há muita claridade, o cérebro entende que ainda não está na hora de dormir e não produz a melatonina, que é o indutor do sono. Para a reposição, é preciso a indicação do médico”.

Coração

Há pesquisas que mostram uma associação entre problemas no sono com o aumento do risco de doenças do coração. De acordo com uma pesquisa norueguesa, pessoas com problemas de sono correm um risco de 27% a 45% maior de sofrer um ataque cardíaco.

“Os problemas no coração podem muitas vezes estar associados à insônia ou problemas com o sono. Na apneia do sono, por exemplo, pode causar a falta de oxigênio no coração, ou ainda causar inflamações que podem provocar enfartes”, explicou o cirurgião cardiovascular, Schariff Moysés.

.

“Qual a relação do estresse com a insônia?”

Maria das Graças Zeferino, 60, dona de casa

A especialista em medicina do sono Jéssica Polese disse que estão diretamente relacionados. “Quanto mais estressado, maior a possibilidade de ter insônia. Quando esse estresse chega a desenvolver um distúrbio de ansiedade, fica pior ainda.”

.

“Como identificar os sinais da insônia?”

Ana Maria Oliveira da Silva, 62 anos, aposentada

O médico e vice-presidente da Associação Capixaba de Medicina Família e Comunidade, Diego José Brandão, explicou que um dos sinais é quando a pessoa se sente insatisfeita com a quantidade de horas que dormiu e isso causa irritabilidade e cansaço. “É uma análise muito pessoal de como o cidadão fica durante o dia”

.

“Dormir depois do almoço contribui para ter insônia?”

Rogério Silva Peres, 57, taxista

O médico da Família e Comunidade, Diego José Brandão, explicou que esse hábito é uma questão pessoal e da rotina de cada pessoa. No entanto, se o cidadão apresenta sinais de insônia, recomenda-se que não tire as sonecas durante o dia para não atrapalhar o sono da noite.

.

“Existe insônia temporária?”

José Lemos Barbosa, 58, tec. segurança do trabalho

A neurologista Juliana Starling disse que a insônia temporária é chamada de insônia aguda. De acordo com ela, geralmente esse tipo de insônia está relacionada com algum evento de estresse ou quadro de ansiedade. Disse que é o tipo mais fácil de tratar da doença, que pode ser por remédio.

.

“Quem tem mais chance de ter insônia: a pessoa que faz o trabalho braçal ou o trabalho intelectual?”

José Braz Vicente, 59 anos, caminhoneiro

Normalmente, de acordo com a especialista em medicina do sono Jéssica Polese, o braçal precisa dormir mais. “A gente costuma dizer que ele vai acumulando substâncias que promovem o sono melhor. Assim, a chance dele ter insônia é menor.”

.

“O remédio contra a insônia vicia? Com o tempo, ele pode parar de fazer efeito?”

Manoela de Jesus, 33, diarista

A neurologista Juliana Starling explicou que o uso do medicamento é sempre temporário, justamente porque existe o risco do vício. No entanto, se bem indicado e acompanhado pelo médico é muito benéfico ao tratamento.

.

“Tem comida que dá insônia? Já o suco de maracujá é bom para dormir?

Alimiro Paulino das Neves, 73 anos, aposentado

Existem estimulantes que causam insônia, segundo a médica Jéssica Polese. “Qualquer coisa que tenha cafeína, cola, estimula quem tem pré-disposição a ficar acordado.” Sobre o suco o maracujá tem algumas substâncias calmantes, mas é muito discreto.

.

“Há diferença entre insônia e doença do sono?”

Elza Pancieri, 75, aposentada

A neurologista Juliana Starling explicou que há pessoas que têm a insônia genérica, que é a dificuldade de sono que vem de família. E também, há dois grupos de pessoas quando se trata de sono, aqueles que têm o sono longo e o sono curto, que precisam de menos horas para dormir.

.

“Beber chá ajuda a dormir? Quais chás?”

Joyce Mourão, 28 anos, doméstica

A médica Jéssica Polese disse que existem substâncias calmantes e hipnóticas em chás, com exceção do chá preto, que tem cafeína. “Camomila é calmante”. Mas ela diz que tão importante quanto essas substâncias é o ritual, como tomar um chá, apagar as luzes e relaxar para dormir.

.

“Dormir com a TV ligada ou com o celular atrapalha mesmo o sono?”

Maria Alice Santos da Silva, 38, professora

O hormônio que induz o sono, chamado de melatonina, só é produzido pelo nosso corpo quando não há incidência de luz nos olhos, como explicou a neurologista Juliana Starling. Ela explicou que para uma boa noite de sono é preciso de uma higiene do sono.

.

Reportagem especial de Eliane Proscholdt e Lorrany Martins para o jornal A Tribuna do dia 10/08/2017




  • Deixe uma resposta

    O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *