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segunda-feira 18 setembro 2017
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Inteligentes, bem-sucedidas e solteiras

A fisioterapeuta obstétrica Romina Amarante e a médica Franciany Dal’Col relatam que, no momento, prioridade é a vida profissional. Foto: Thiago Coutinho/AT

Mulheres priorizam a vida profissional e afirmam que os homens se assustam diante da sua condição de independência

Elas chamam atenção por onde passam. São bonitas, bem-sucedidas, independentes financeiramente, focadas em suas áreas profissionais e, autossuficientes que são, não saem na busca incessante por um amor.

A fisioterapeuta obstétrica, Romina Amarante, 34 anos, faz parte deste perfil.

Ela tem duas graduações no currículo, em Educação Física e Fisioterapia, e uma especialização em São Paulo. Abriu sua própria clínica e não coloca as relações amorosas em detrimento ao andamento da carreira. Está solteira e, já adianta, não encara o status de forma negativa. Muito pelo contrário.

“Como trabalho com partos, fico de sobreaviso. Saio de casa sem hora para voltar, não tenho rotina fixa. Certa vez, num encontro, meu telefone tocou, era uma urgência e tive que sair. O cara não gostou e usou de ironia. Eu sei que isso frustra, mas meu foco é profissional. Não vou abrir mão disso em prol de um namoro. Para ficar comigo, tem que entender a minha vida”, explica.

É que, para Romina, um bom exemplo de inteligente, bem-sucedida e solteira, as representantes do sexo feminino, antes “sexo frágil”, querem ser “supermulheres em todos os aspectos”.

“Percebo que isso assusta demais os homens, que ficam reativos quando a gente chega cheia de independência, seja no trabalho ou financeiramente. E às vezes eles se surpreendem como se fosse uma grande novidade”, ressalta.

E Romina, claro, não está sozinha. A médica Franciany DalCol, 28, mãe de um menino de um ano e dois meses, é formada há três anos, faz especialização em Nutrologia, tem a casa própria e… está solteira há sete meses.

“O campo afetivo já foi prioridade. Estou focada no trabalho e no bebê. Antes, achava que precisava de alguém para ficar completa, mas me basto. Aprendi que temos que ser completos para só depois buscar plenitude no outro. Algumas amigas ficam desesperadas em ter alguém por causa da idade, mas aprendi a viver sem dependência emocional. Além disso, os homens, diante de mulheres que pensam assim, ficam muito inseguros”, acrescenta.

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Pesquisa europeia

uma pesquisa intitulada “Por que os homens inteligentes escolhem mulheres menos inteligentes?”, publicada em jornais europeus, feita com homens britânicos, e encabeçada pelo acadêmico John Cartney explica que as mulheres que estudam ou trabalham mais horas do que o habitual tendem a escolher homens com maior inteligência.

Segundo Cartney, são estes os homens que, estatisticamente, são os que têm os melhores empregos e salários, o que as ajudaria a crescer economicamente e desfrutar de um modo de vida mais elevado.

A mesma pesquisa também apontou que os homens procuram mulheres que priorizam o relacionamento e o projeto familiar acima de qualquer outro aspecto da vida.

De modo que as mulheres que não se dedicam tanto ao ofício, nem a especializações e graduações são as que mais tendem a estar dispostas a apoiar essa ideia.

Pesquisa americana

Universitários americanos tiveram que interagir com uma mulher que havia tirado uma nota maior que a deles num teste de inteligência.

Depois que os participantes encontraram a mulher, fizeram o teste sentados ao lado dela, ouviram as notas em voz alta e, em seguida, foi pedido que eles colocassem suas cadeiras em frente à cadeira da mulher.

Tanto os homens quanto a mulher responderam a uma pesquisa sobre suas primeiras impressões – especificamente, até que ponto acharam o outro atraente e desejável.

Os pesquisadores observaram a distância entre as duas cadeiras como uma medida para saber o quão atraído o homem estava pela mulher.

Homens que foram colocados ao lado da mulher que tirou nota mais alta do que a deles sentiram necessidade de se distanciar fisicamente dela quando moveram as cadeiras.

E, por fim, também ficaram mais inclinados a classificá-la como menos atraente e desejável para um namoro.

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Eles querem ser melhores que nós”

Licia Rebello, 23 anos, é proprietária de um estúdio de maquiagem e instrutora de beauté. Foto: Kadidja Fernandes/AT

Solteira há um ano, a empresária Licia Rebello, de 23 anos, é tácita: “Os homens têm medo e receio quando veem uma mulher bem-sucedida, que ganha seu dinheiro e é autossuficiente. Eles saem fora, não se sentem bem”.

Palavras de quem já passou por isso na pele. “Um cara, certa vez, já quis saber quanto eu ganhava. Quando respondi, achou um absurdo eu ganhar mais que ele, trabalhando menos horas. Eles querem ser melhores que nós de alguma forma, parece que se sentem inferiores, o que claramente é um comportamento machista”, diz.

Proprietária de um estúdio de maquiagem e instrutora de beauté, Licia foi para São Paulo se especializar no assunto e, na volta, abriu seu próprio negócio.

“Quando os homens me conhecem e veem o que eu conquistei com tão pouca idade, caem fora. Acontece muito comigo”, narra.

Paralelo a isso, a loura também caminha por trilhos que não findam necessariamente na existência de um relacionamento amoroso.

“Meu foco é total para o trabalho. Além de cuidar do meu estúdio, também ministro cursos. Acaba não sobrando tempo. E também trabalho muito aos sábados, que é o dia das festas e que há muita demanda de maquiagem. Então o final de semana, que é o dia de curtição da maioria, acaba sendo o que eu mais estou ocupada. Alguns homens não entendem isso e até perguntam: ‘Não vai parar de trabalhar não?’”, conta.

No outro extremo, Licia corrobora o resultado da pesquisa britânica que diz que mulheres bem-sucedidas e independentes tendem a ser mais criteriosas em suas escolhas e, não encontrando o par ideal ao seu imaginário de alcance, acabam ficando solteiras.

“Também sou exigente. Porque, é claro, a gente quer alguém equiparado ao nosso lado. Busco alguém que pense da mesma forma, que pelo menos já tenha uma faculdade, também foque no futuro, leve o lado profissional a sério, com esmero, da mesma forma como eu”, revela.

Mudar os rumos dessa prosa, ela conta, não estão em seus planos: “Amo meu trabalho, eu o escolhi e não mudarei a forma como encaro ele por causa de relacionamento”.

Raciocínio de quem tem na ponta da língua a definição do que é uma mulher bem-sucedida em tempos de movimento feminista: “É uma mulher que não depende de ninguém, é feliz fazendo seu trabalho e se autocompleta”.

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Aspecto psicológico pode dificultar relação do casal

Mulher bem-sucedida pode provocar inibição sexual no homem, diz especialista. Foto: Divulgação

Autorregulação. É sobre essa competência do indivíduo para planejar, monitorar e avaliar os seus pensamentos, sentimentos e comportamentos, controlando-os, que versa o psicólogo Enéas Lara ao analisar comportamentos, relacionamentos e focos das “inteligentes, bem-sucedidas e solteiras”.

“Quando a mulher se autorregula, diminui a necessidade da afetividade porque se realiza de muitas outras formas. Quando você reduz a essência de uma pessoa ao amor, essa essência fica empobrecida. A vida não se reduz a afetividade. E também é evidente que há homens que se orgulham de mulheres bem-sucedidas, mas quando esse homem não esta equilibrado, o diferente dele é uma ameaça. Por isso que as pesquisas falam em ego fragilizado masculino”, explica.

A sexóloga Sirleide Stinguel vai além e lembra que “vivemos ainda numa sociedade machista”. “Por mais mudanças que ocorreram, ainda há a influência psíquica do domínio masculino e como tal ele foi criado nos relacionamentos. Quando o homem se depara com uma mulher que não quer servir e sim ser servida acontece um conflito de interesses e, consequentemente, uma inibição da sexualidade. Em meu consultório recebo diariamente homens com esse quadro de inibição sexual seguindo para algumas disfunções sexuais, como a ejaculação precoce, disfunção erétil e anorgasmia”, conta.

Na leva de análises, a psicóloga Daniela Morais acrescenta outro conceito: o da polaridade.

“É o que a gente chama no campo comportamental quando a mulher tem se tornado uma ‘mulher masculina’. É polaridade. Elas abriram o leque e isso faz com que os homens fiquem mais ariscos porque eles acham que são dois homens na mesma relação”, conta.

Morais, no entanto, pondera uma boa nova nas relações interpessoais: “Essas mulheres são as que passaram a priorizar outras coisas, a não ser essas bases de relacionamento e eu as considero mais inteligente. E o melhor: elas não estão perdendo a essência delas, ainda assim”.

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Tempo é problema”

Foto: Antonio Moreira/AT

Verônica Paes, 25, é formada em nutrição, chegou a cursar administração e há dois anos é dona de uma loja. Seu foco é o crescimento profissional e, segundo ela, a mulher independente tende a intimidar os homens.

“O tempo também é um problema. Como trabalho até nos finais de semana, acaba sendo bastante difícil encontrar um tempo para relacionamentos, e por isso acaba sendo uma segunda opção para mim. Não tenho buscado relacionamentos, pois estou bastante focada no trabalho e encontrar alguém com os mesmos objetivos e prioridades não é fácil”, revela.

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Reportagem especial de Lucas Rezende para o jornal A Tribuna do dia 09/07/2017




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