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terça-feira 22 agosto 2017
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Paraísos do petróleo no Brasil afundam na crise

Plataforma de petróleo no litoral brasileiro. Após 20 anos, municípios ainda não conseguiram vencer dependência do setor. Foto: Arquivo/AT.

Vinte anos após o fim do monopólio estatal no setor de petróleo, as cidades que concentram a atividade no país vivem um cenário desolador, com crescimento no desemprego, crise no comércio e perda de arrecadação.
A situação reflete a redução abrupta das operações nos últimos anos, provocada pela interrupção dos leilões após a descoberta do pré-sal, da situação financeira da Petrobras e da queda das cotações internacionais do petróleo.

A lei 9.478/97, que pôs fim ao monopólio da Petrobras, foi publicada em 6 de agosto de 1997, trazendo ao país petroleiras estrangeiras e gerando forte crescimento da atividade e da receita dos municípios próximos à produção.
Segundo a ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis), apenas 39 poços exploratórios, aqueles perfurados em busca de novas reservas, foram concluídos no Brasil no ano passado, ou um sexto do pico de 238 atingido em 2011.

Os números de 2017 mostram que a situação pode ficar ainda pior: até maio, foram apenas sete.
Com menos poços, o número de sondas em operação no Brasil caiu da casa das 90 para apenas 16. Especialistas estimam que cada sonda marítima empregue diretamente cerca de 1.000 pessoas. As terrestres geram entre 60 e 70 vagas, dependendo do porte.

Dados compilados pela Firjan (Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro) com base nas estatísticas do Ministério do Trabalho mostram que o estoque de empregos na atividade de exploração e produção de petróleo no país caiu 21% desde 2013, para 49,1 mil em 2016.

A reportagem esteve em duas das principais cidades petroleiras do país, que passaram por um período de bonança na virada da década e hoje sentem os efeitos da crise: Catu (BA), que é base das atividades na maior bacia terrestre brasileira, e Macaé (RJ), sede da Petrobras para a bacia de Campos, onde foi desenvolvida a exploração marítima no país. Nas duas, os efeitos se espalham para além do setor, atingindo o comércio e a administração pública.

Na opinião do professor da PUC-Rio Alfredo Renault, o cenário atual mostra que, 20 anos após a publicação da lei 9.478 -que atraiu novas empresas e ampliou as alíquotas de royalties do petróleo-, os municípios ainda não conseguiram reduzir a dependência do setor. “A riqueza gerada pelo petróleo deveria ser uma oportunidade para construir políticas públicas e diversificar a economia. Mas nesse primeiro ciclo isso não aconteceu.”

Mototáxi vira ganha-pão para petroleiros na Bahia

“Se você for perguntar por aqui, tem um monte de gente que já trabalhou com petróleo e hoje está batalhando a vida na ‘motinha'”, diz Joaquim Souza Cruz, 41, apontando para o ponto de mototáxi em frente ao hospital municipal de Catu (BA), a 90 quilômetros de Salvador.

Cruz trabalhou por 14 anos com perfuração de poços petrolíferos e chegou a ganhar R$ 2.600 por mês. Há cinco, luta para tirar R$ 40 por dia transportando pessoas na garupa a R$ 3 por viagem.
“Tem soldador, motorista classe E (habilitados para conduzir os caminhões pesados usados no transporte de sondas)… Olha um aí”, ele aponta para Ademário Santana, 42, que aderiu ao mototáxi depois de perder o emprego há três anos.

Santana recebia R$ 3.000 por mês como lixador em Macaé, no norte fluminense. Sem emprego, decidiu voltar para casa há três anos, depois de ter vivido no Paraná, em São Paulo e no Rio.
Com a queda na renda, ambos tiveram de se adaptar. A decisão mais dolorosa, para os dois, foi transferir os filhos para a escola pública.

Primeiro polo petroleiro do país, Catu foi a base da expansão da produção nacional nas décadas no século passado, antes da descoberta das reservas marítimas da bacia de Campos.
Sede de instalações das principais fornecedoras globais do setor, como as americanas Halliburton e Baker Hughes e a francesa Schlumberger, a cidade experimentou um período de grande crescimento com a chegada de petroleiras privadas após o fim do monopólio.

No auge, em 2011, chegou a ter 14 sondas procurando petróleo e 45 para intervenção em poços produtores. Hoje, há quatro de exploração e 17 de produção.

Com a queda no número de poços, a arrecadação do município com ISS caiu 35% entre 2013 e 2017, para R$ 11 milhões. O estoque de emprego na atividade de apoio ao setor de petróleo, que era de 1.640 vagas, caiu na mesma intensidade, para 1.072 em maio.
“Entre 2009 e 2011, faltava mão de obra. Os salários subiram e muita gente foi atrás de cursos de especialização. Hoje, estão brigando pelas vagas”, diz o diretor do Sindicato dos Petroleiros da Bahia, Radiovaldo Costa.

ANEXO FECHADO

A pedido das fornecedoras da Petrobras, o empresário Luiz Carlos Góes investiu R$ 650 mil em 2012 para construir um anexo em seu hotel, dobrando o número de quartos. Pouco mais de um ano depois, fechou o anexo por falta de demanda.

“A gente acaba consumindo todas as economias que tem para sobreviver”, diz ele, que decidiu abrir uma loja para diversificar as receitas e hoje conta com a ajuda da família para tocar o negócio.
A empresária Eloí Rodrigues, 64, teve menos sorte. Natural de Concórdia (SC), foi parar em Catu seguindo companhias de pesquisa sísmica, espécie de ultrassonografia do subsolo, para quem fornecia serviços de alimentação.

Com a suspensão da atividade, perdeu o último contrato há três anos e teve de vender dois imóveis e o carro para quitar dívidas. “A família toda ficou desempregada. Minha filha teve de parar a faculdade.”

Nos tempos áureos, servia 1.500 refeições ao dia. Hoje, tenta sobreviver de um restaurante em um posto na entrada da cidade. “A gente fica estressada, com problemas de saúde”, conta, sem muita esperança em melhora.

Macaé ganha praça do desempregado

Logo na chegada a Macaé (RJ), a 190 quilômetros do Rio, chama a atenção o grande número de estabelecimentos comerciais fechados, com placas de “aluga-se” ou “vende-se”, uma mostra de quanto a crise do petróleo se alastrou para outros setores da economia local.

O Sindicato dos Empregados do Comércio de Macaé estima que 630 estabelecimentos tenham fechado as portas na cidade apenas neste ano. Quem sobreviveu teve de se adaptar à nova rotina.

“Uma hora dessas, tinha um mar de pessoas passando aqui na porta. Hoje, é só esse pouquinho aí”, lamenta o comerciante Paulo Roberto Laje Soares, 54, apontando para a saída de empregados do porto da Petrobras no horário do almoço.

Dono de uma padaria na área há oito anos, ele demitiu seis das oito atendentes. Das duas restantes, uma trabalha em meio período. “O movimento caiu uns 70%.”

Principal base de apoio às operações da bacia de Campos, a cidade acumula um saldo negativo de 29.118 postos de trabalho desde 2015, segundo dados do Ministério do Trabalho, depois que a Petrobras decidiu focar seus recursos na expansão do pré-sal na bacia de Santos.

O desemprego é tão grande que a praça Veríssimo de Melo, na área central do município fluminense, passou a ser conhecida como “praça do desempregado”.

BICOS

“É aqui que a gente se encontra para dialogar, para trocar informação”, afirma Reginaldo de Jesus Gonçalves, 51, 25 deles trabalhando no setor de petróleo como plataformista, profissional responsável pelas operações no convés de uma sonda de perfuração.

“Neste tempo todo, foi a primeira vez que fiquei sem emprego”, conta ele, há um ano procurando nova ocupação. Perdeu o salário de R$ 2.200 e tem se virado com bicos.

A Petrobras diz que o foco de seu plano de negócios é reduzir o elevado endividamento dos últimos anos para permitir “um ciclo virtuoso de mais investimentos, maior receita, mais empregos, royalties e arrecadação”.

Reportagem de Nicola Pamplona (Folhapress).




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