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segunda-feira 20 novembro 2017
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Pastores e padres revelam os pecados do mundo moderno

Pastor José Ernesto Conti, padre Anderson Gomes e pastor Enoque de Castro. Foto: Thiago Coutinho.

Pastor José Ernesto Conti, padre Anderson Gomes e pastor Enoque de Castro. Foto: Thiago Coutinho.

Mentiras, escândalos e violência são frequentes na sociedade moderna. Especialistas dizem que essas atitudes refletem uma crise ética que atinge todas as idades e classes sociais. Para a religião, essas são novas formas do pecado no mundo.

Corrupção, consumismo e exibicionismo nas redes sociais, além da violência contra a mulher, são alguns dos pecados mais evidenciados na vida moderna e apontados por padres e pastores.

De acordo com o pastor e presidente do Conselho Estadual de Igrejas do Espírito Santo, José Ernesto Conti, a sociedade sabe o que é certo e faz o errado. “Isso é pecado, a incapacidade de obedecer a Deus. O homem vive e continuará vivendo com esse drama, sabemos o que é bom, mas fazemos o que é mal. Sabemos o que é certo, mas fazemos o que é errado. Também se dá a isso o nome de corrupção”, destacou.

Já o padre da Paróquia Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, Anderson Gomes, acredita que o grande problema da sociedade moderna é não saber exatamente o que é o pecado. “As pessoas não sabem mais o que é pecado. Tudo se tornou tão relativo que o mais importante não é nomear, mas saber o que ele é realmente. Tudo isso é devido à falta do temor a Deus. Sem este temor as pessoas não conseguem saber o que é certo ou errado.”

De acordo com o pastor e presidente da Associação de Pastores Evangélicos da Grande Vitória, Enoque de Castro, a concepção de pecado vem da palavra grega “hamartia”, que significa errar o alvo. “E toda vez que deixamos os desejos da carne dominar, erramos o alvo, falhamos com Deus.”

Para a Igreja Católica, há sete pecados conhecidos como capitais ou principais. Segundo o mestre e doutorando em Teologia Luciano Gomes, que também é professor da Faculdade de Direito Padre Arnaldo Janssen, os sete pecados capitais foram formalizados no século VI, pelo papa Gregório Magno. “Eles foram baseados nas Epístolas de Paulo. Os sete pecados são definidos como sendo os sete principais vícios da conduta humana.”

O conceito de pecado não existe apenas entre os cristãos, segundo o pastor da Igreja Presbiteriana e historiador José Mário Gonçalves. “Embora a palavra ‘pecado’ esteja presente apenas nas religiões chamadas abraâmicas ( judaísmo, cristianismo e islamismo), a ideia está presente em outras crenças religiosas e sistemas filosóficos, se assemelha à ética.”

Pecados capitais.

Pecados capitais.

Faltam limites, dizem religiosos

Muitos séculos se passaram desde que o papa Gregório Magno elencou os sete pecados capitais. E, apesar de parecerem novos, os pecados principais continuam os mesmos.

No entanto, a sociedade mudou e, de acordo com religiosos, está sem referência e sem limites, o que aumenta ainda mais a crise ética do País. “Grande parte das pessoas estão sem referência do que é certo ou errado, estão isentas de limites e de conhecimento da Palavra de Deus. Com isso, pecam mais”, destacou o padre da Paróquia Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, Anderson Gomes.

Segundo o pastor e presidente do Conselho Estadual de Igrejas do Espírito Santo, José Ernesto Conti, essa liberdade está afetando até mesmo as igrejas. “A igreja e sua mensagem se tornaram amigáveis aos ouvidos humanos, e passaram a pregar um deus que não existe, um deus permissivo e que é obrigado a perdoar qualquer pecado do homem, que apenas satisfaz os mais baixos desejos humanos. Não é essa a igreja da Bíblia. Pecado é coisa séria e a Bíblia nos adverte que devemos fugir dele”, afirmou Conti.

Ele acredita que uma sociedade que aprende a evitar o pecado se torna mais justa, verdadeira, igualitária e desenvolvida. “Vemos isso de forma clara nos países em que a reforma protestante superou outras religiões, como Suíça, Alemanha, Dinamarca.”

O padre e coordenador da Comissão para a Juventude da Arquidiocese de Vitória, Jacqueson Pimentel, destacou que os jovens estão sendo seduzidos pelo pecado. “Acredito que o grande pecado do mundo hoje é a intolerância. E, infelizmente, ela está presente de todas as formas, raciais, de classes, e até sexual. Acredito que esses jovens têm de ser acolhidos.”

Grupos de jovens, orientações dos líderes, além de estudo da Bíblia, são algumas das atitudes que as igrejas têm tomado para ajudar os jovens, principalmente a resistirem às tentações dos pecados e terem uma vida mais equilibrada. “Trabalhos em grupo com os jovens são importantes, mas acho que eles devem ser acolhidos de forma individual”, destacou o padre Jacqueson.

 

“Mais equilíbrio”

Nathan Oliveira Pereira. Foto: Fábio Vicentini

Nathan Oliveira Pereira. Foto: Fábio Vicentini

Se afastar do pecado não é uma coisa fácil, principalmente para os jovens, que têm muitas tentações, inclusive nas questões sexuais. Mas, decidido a resistir, o universitário Nathan Oliveira Pereira, 21 anos, contou que encontrou o equilíbrio de suas emoções e não se sente mais perdido.

“Tive uma criação religiosa, mas em uma fase da minha vida procurei outras coisas. Ia a festas, ficava com as garotas, mas isso não me preenchia, tinha um vazio. Sempre buscava coisas para fazer, e fazia exageradamente, em um ciclo, como um vício, sempre buscando algo para preencher. Mas hoje sinto que tenho muito mais equilíbrio. Não é fácil resistir ao pecado, mas o bem físico e mental é muito maior”, afirmou Nathan.

 

“Sentimento de culpa pode causar distúrbios”

 

Edebrande Cavalieri. Foto: Thiago Coutinho

Edebrande Cavalieri. Foto: Thiago Coutinho

Como diz a cultura popular, “nem tanto ao céu, nem tanto à terra”. O equilíbrio é fundamental até mesmo quando o assunto é religião e fé. É o que afirmam especialistas em Ciência das Religiões.

De acordo com o doutor em Religião e professor da Ufes Edebrande Cavalieri, o exagero, o fanatismo religioso, pode ser prejudicial e levar até mesmo a problemas mentais. “Na religiosidade popular muitos exageros podem ser verificados na vivência relativa ao pecado. Isso impacta fortemente no sentimento de culpa do pecado, que pode gerar distúrbios psíquicos.”

De acordo com ele, as religiões populares, ou a religiosidade popular, produz uma concepção de pecado muito forte. “Muitas vezes, até nociva para a própria pessoa, como nos casos em que a pessoa se acha tão pecadora e se impõe a autoflagelação como penitência”, frisou.

O doutor e pesquisador em Ciências da Religião Paulo Agostinho Baptista também acredita que um dos problemas da religião que leva ao sentimento de culpa em relação ao pecado é o exagero.

“Outro problema é uma neurose obsessiva, uma moral doentia e rígida. Uma consciência rígida, fechada, fundamentalista, pode adoecer e trazer muito sofrimento para quem a pratica”, destacou.

No entanto, os estudiosos chamam a atenção para outro movimento em relação à fé. De acordo com Edebrande Cavalieri, estamos presenciando o fim do sentimento de pecado, o que também traz muitos males para a sociedade. “A cada dia as pessoas se sentem mais sem limites. Portanto, sem possibilidade de pecado. Tudo passa a ser permitido de acordo com o próprio desejo. Estamos formando uma sociedade perversa, que desconhece os limites para a convivência humana”, afirmou.

Ele ainda destaca que a ausência do sentimento de pecado, de transgressão, está produzindo uma sociedade altamente individualista e sem limites.

Já Paulo Agostinho Baptista defende que a consciência religiosa atual não é diferente de outras épocas. “Falta conhecimento e formação religiosa. Fala-se que o pecado acabou, que se libertou do pecado, mas o que mudou foi que a maioria das pessoas deixou de ser religiosa e, por isso, a consciência do pecado se foi.”

 

 

Dedicação a tudo

Dentista Catarina Riva. Foto: Fábio Vicentini

Dentista Catarina Riva. Foto: Fábio Vicentini

Ao contrário da vontade de não fazer nada, hoje a preguiça pode ser traduzida, segundo especialistas, na  superficialidade e na falta de interesse. Não é o caso da dentista Catarina Riva, 38 anos.
Muito devota, ela mantém várias tarefas no dia a dia. “Tenho muitas tarefas, e cada uma delas faço com dedicação total. Não gosto de fazer nada de forma superficial, tenho de fazer com perfeição, inclusive a dedicação à minha fé”, destacou.

 

Mais de 40% seguem duas religiões

Um estudo inédito sobre religião, medicina e fé, realizado no Brasil pelo Programa de Saúde, Espiritualidade e Religiosidade (ProSER) da Universidade de São Paulo (USP), mostrou que muitos brasileiros são religiosos, mas não seguem apenas uma única religião ou doutrina.

Segundo a pesquisa, 44% dos brasileiros consideram-se seguidores de duas ou mais religiões. Outro dado interessante da pesquisa, que também mostra a mudança dos brasileiros em relação à fé e religião é que 49% nasceram em uma religião diferente da que têm hoje.

De acordo com a psicóloga do Hospital Metropolitano Emelini Sperandio, essa procura por religiões pode estar evidenciando a tentativa de preencher uma carência. “Somos movidos pelo vazio. Sempre seremos incompletos, não alcançaremos nunca o preenchimento total. A carência de propósito e de um significado para a vida faz com que o indivíduo contemporâneo busque incessantemente esse preenchimento.”

Segundo ela, algumas pessoas usam a religião para isso e outras o consumismo, por exemplo. “Mas a significação de sua vida é colocada nesses ‘objetos’, e o mercado oferece isso, inclusive o mercado religioso, onde há promessas de milagres e de prosperidade.”

As religiões no Brasil

As religiões no Brasil

“O maior pecado é não amar o próximo”, diz pastor

O amor é o princípio de tudo, é o que afirma o pastor e fundador da Igreja Cristã Contemporânea, Marcos Gladstone. A igreja é conhecida no País por aceitar relacionamentos homoafetivos entres os membros.

“Acredito que o grande pecado hoje é a falta de amor ao próximo, é aquele que faz mal ao outro. E esse mal tem se revelado de várias formas. Jesus disse para amar o próximo como a si mesmo. Então, tudo que for contra o amor, maléfico e ferir é sim pecado”, destacou.

Ele defende que um homem amar outro homem não é pecado, como pregam muitas denominações religiosas. “Pecado é ser hipócrita. Jesus sempre combateu a hipocrisia de pessoas que se mostram uma coisa, mas que na verdade são podres por dentro. É muito mais fácil odiar alguém, agir com preconceito com qualquer pessoa, seja negra, gorda, ou gay, mas isso não é o correto.”

Fundada pelo pastor e seu marido, o pastor Fábio Inácio, a Igreja Cristã Contemporânea tem 10 anos e o primeiro templo foi aberto no Rio de Janeiro. “Nossa igreja é adepta da teologia inclusiva. O principal objetivo é levar o evangelho inclusivo para o público homoafetivo”, explicou o pastor.

Hoje, com mais de 3 mil membros, a denominação também está presente em Minas Gerais e São Paulo e está chegando a Vitória. O primeiro encontro acontece hoje, às 18 horas, no auditório do Bristol Easy Hotel, em Vila Velha.

A expectativa é que cerca de 50 pessoas participem do ato religioso. “Inicialmente, os cultos serão de 15 em 15 dias. Mas logo teremos um templo no Espírito Santo.”

OS PECADOS

Corrupção

A corrupção nasce da avareza, que é o desejo de ter sempre mais, mesmo que, para isso, passemos por cima da honestidade e da necessidade do próximo. A corrupção é um pecado que não está só nos políticos, mas em toda a sociedade.

Intolerância

Apesar de hoje a sociedade brasileira ser mais liberal e permissiva, de acordo com religiosos, há também muita intolerância. Amigos brigam por diferenças políticas, pessoas se agridem por causa de time de futebol, orientações sexuais. Para religiosos, falta amor.

Exibicionismo

Exibição exagerada e vaidade não podem ser confundidas com autoestima. O que acontece no mundo moderno é que as pessoas estão se exibindo demais, e se acham superiores aos demais, principalmente por ter uma aparência considerada melhor do que a dos outros.

Consumismo

Ter é mais importante do que ser. De acordo com religiosos, muitas pessoas estão se perdendo no consumismo e na vontade de ter sempre o que é melhor. E isso, quase sempre, está agregado ao hábito de mostrar o que tem. A avareza moderna está ligada aos bens materiais.

Violência contra a mulher

Um assunto muito discutido hoje pode ser traduzido em vários tipos de pecados. A raiva que se torna ódio contra a mulher é algo que tem chamado a atenção dos religiosos. Junto a isso está a soberba dos homens em achar que são maiores e mais importantes que as mulheres.

Impaciência

As pessoas estão impacientes em todos os aspectos e áreas da vida. Para religiosos, essa inquietação afasta as pessoas de Deus, porque a primeira característica do amor citada pelo apóstolo Paulo em carta aos Coríntios é que o amor é paciente. Quem não é paciente não ama, e quem não ama peca contra Deus, afirmam líderes religiosos.

Superficialidade

A pressa e as multitarefas da sociedade contemporânea prejudicam a relação familiar, espiritual e até mesmo consigo mesmo. Fazer muitas coisas ao mesmo tempo se torna pecado, de acordo com religiosos, porque não há profundidade e dedicação naquilo que se faz. A superficialidade daqueles que, hoje em dia, se negam a aprender e a conhecer o mundo para além do senso comum ilustra esse tipo de preguiça.

Banalização do corpo

A luxúria se mostra hoje não só no sexo ou no desejo sexual, mas, por exemplo, nas relações promíscuas, múltiplas e na forma como o sexo vem sendo transformado em mercadoria na cultura contemporânea, de acordo com religiosos. Para eles, as pessoas estão se rendendo aos desejos da carne e, quando fazem isso, se afastam de Deus.

Preguiça espiritual

Acreditar, mas não praticar aquilo que a doutrina prega, seja ela qual for, pode ser considerado o pecado da preguiça. Muitos colocam a culpa na falta de tempo, mas acabam não colocando a religião como prioridade na vida.

Individualismo

Pensar apenas em si, não interagir ou olhar para a necessidade do outro também é um dos grandes pecados do mundo moderno, segundo religiosos. Com o individualismo, as pessoas se tornaram indiferentes em relação ao próximo, não ajudando a quem precisa.

Hipocrisia

Muitas pessoas fingem ser o que não são, principalmente nas redes sociais. No entanto, além das mentiras no meio virtual, os religiosos ressaltam também a mentira sobre ter qualidades, virtudes, cursos, experiências que não possui de verdade.

Desperdício de comida

No mundo inteiro, cerca de 1,3 bilhão de tonelada de alimentos é desperdiçada todo ano; no Brasil, são 41 mil toneladas. E esse cenário acontece ao mesmo tempo em que muitas pessoas estão famintas. Grande parte da sociedade come de forma exagerado, enquanto muitos passam fome.

Fonte: Padres, pastores e especialista em religião entrevistados

 

 

Lorrany Martins




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