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domingo 17 dezembro 2017
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Ser honesto vale a pena?

Estudo mostra que, apesar dos casos de corrupção no País, maioria das pessoas afirma que é fundamental ter uma vida digna e correta

Malas de dinheiro, pagamento de propina, vantagens indevidas, mentiras e omissões de toda ordem ganharam muito destaque no Brasil nos últimos anos. A enxurrada de notícias sobre a corrupção pode levar o cidadão a pensar se ainda vale a pena ser honesto.

De acordo com 95,59% da população da Grande Vitória, mesmo com tantas irregularidades do ponto de vista ético, o caminho que deve ser seguido é o da honestidade. O dado é de um levantamento feita pelo Centro de Pesquisas Rachid Mohamd Chibib, da Faculdade Pio XII, em parceria com o jornal A Tribuna.

A pesquisa mostrou que as pessoas se consideram corretas: 82,37% disseram que são honestos. Cariacica é o lugar onde as pessoas se consideram mais íntegras, 85,38% dos entrevistados.

Quando apresentadas as situações, as pessoas revelaram como se comportariam: 64% dizem que devolvem a carteira encontrada ao dono, 78% assumem o erro no trabalho e 85% devolvem o troco a mais.

“A pesquisa mostrou que as pessoas acham que vale a pena ser honesto no País, mesmo tendo péssimos exemplos, como os políticos desonestos”, disse o coordenador do estudo, Robson Souza.

De acordo com o psicólogo Enéas Lara, mesmo com tantos problemas de ordem moral, a população ainda acredita que haverá dias melhores.

“A corrupção faz parte do mundo, e se prestarmos atenção e buscarmos o valor da honestidade como algo pessoal, poderemos nos poupar das consequências do contrário dela”, destacou.

Segundo o professor de Filosofia da Ufes Edebrande Cavalieri, apesar do otimismo, vivemos numa sociedade em que pouco se faz para a educação de valores como a honestidade. “Temos o costume de fazer com que o honesto pareça é um ‘trouxa’, como se diz no cotidiano. A honestidade é um valor fundamental para a vida política e a convivência social”, destacou.

E a psicóloga Gisele Barreto completa chamando atenção para o papel de cada cidadão.

“Nossa parte é mais que exigir, é agir. Também procurar identificar e modificar os erros em nós mesmos.”

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População admite atitudes corruptas

Nathielle encontrou celular de Letícia na areia de um parquinho em Vila Velha e devolveu. Foto: Antonio Moreira/AT

O desejo de uma sociedade menos corrupta e o otimismo de que ainda vale a pena ser honesto contrasta com o fato de que a maioria da população pratica atos ilícitos.

Foi o que mostrou o estudo realizado pelo Centro de Pesquisas Rachid Mohamd Chibib, da Faculdade Pio XII, em parceria com o jornal A Tribuna.

De acordo com os dados, 61,86% dos entrevistados admitiram que já praticaram atitudes corruptas como comprar DVD pirata e entregar atestados falsos. Esses atos lideram atitudes desonestas apontadas pela pesquisa.

São 54,24% que admitem já terem comprado CD ou DVD piratas. Dos entrevistados, 37,29% disseram que entregaram atestados falsos para se livrar de um dia de trabalho ou estudo.

“Esse dado chamou bastante atenção. É grande a quantidade de pessoas que, mesmo se dizendo honestas, já entregaram atestados falsos. Nesse dado podemos compreender que as pessoas compraram os atestados ou mentiram para o médico para conseguir o documento”.

De acordo com a psicóloga Gisele Barreto, um dos reflexos mais graves da falta de educação é a corrupção. “Chega a ser hipócrita a forma como nos escandalizamos com as notícias. Afinal, na intimidade, somos um povo corruptível”.

O psicólogo Breno Rosostolato ressalta que muitas vezes as pessoas arranjam formas para justificar o ato corrupto e acabam acreditando que continuam da mesma forma honestas.

“Ficamos indignados com atos de corrupções em Brasília, mas somos complacentes coma carteirinha de estudante falsa, com furar a fila e outros. Atos desonestos não têm maior ou menor intensidade, mas isso é uma forma de justificar”.

Outro dado que chamou atenção é que 13,73% das pessoas disseram que não devolveram objetos encontrados. Atitude diferente do que teve a nutricionista Nathielle Hernandez, 29 anos. Ela encontrou um iPhone 6 na areia do parquinho da Praia da Costa, enquanto passeava com o filho.

“Comecei a procurar o dono na hora. Fiz de tudo, mas não consegui. Fiquei angustiada. Em nenhum momento pensei em ficar com ele, não é meu!”.

E a busca foi tão intensa, que ela encontrou a dona do celular. A vendedora Letícia Lima, 23. “Perdi em um show. Chorei muito, não acreditava mais que encontraria. Quando vi Nathielli, queria abraçar e beijar; não sabia como agradecer.”

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Dinheiro no lixo

A honestidade dos garis da Marca Ambiental Wanderson Lopes, 30, e Júlio Cesar Ares, 46, salvou o orçamento do empresário de Cariacica Antônio Marcos de Oliveira, 46.

Por engano, a mulher do empresário jogou uma sacola com R$ 5 mil no lixo. Desesperado, Antônio foi até o deposito de lixo e contou o que tinha acontecido.

“Wanderson tinha achado a sacola e me entregou o dinheiro. Graça a Deus os dois são honestos e como recompensa dei uma churrasqueira e vou dar um jogo de panela.”

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Perdeu todo o salário

A balconista Bianca Bispo Santos perdeu o salário inteiro. Ficou desesperada e procurou por todos os lugares, até nas lixeiras da padaria onde trabalha, em Guarapari.

Para sua surpresa, no dia seguinte, um motorista de ônibus ligou para o seu emprego informando que ele e a trocadora tinham achado o dinheiro. Ela havia perdido o salário no ônibus.

“Encontrar pessoas honestas é muito bom”, afirmou.

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Exemplo em sala de aula

A professora de inglês Marinalva Cavalieri Bittencourt, 52, não perde a oportunidade de ensinar seus alunos o valor da honestidade. Tanto que virou exemplo com o seu projeto em todas as turmas que atua.

“Trabalho a consciência cidadã, que perpassa pelo ensino da honestidade. Digo a eles que a honestidade começa pelo respeito ao outro, a empatia e o cuidado com o próximo. Converso com eles situações do dia a dia como, por exemplo, colar na prova é inadmissível”, disse.

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Estimulação cerebral para ter mais honestidade

Fagundes explica conexões importantes no cérebro. Foto: Fernando Ribeiro/AT

Uma pesquisa da Universidade de Zurique (UZH), na Suíça, em parceria com cientistas de Chicago e Boston, nos Estados Unidos, revelou uma área no cérebro que pode deixar as pessoas mais propensas a serem honestas quando é estimulada.

Os cientistas descobriram que os participantes da pesquisa ficaram menos propensos a trapacear depois de receber estimulação não-invasiva com aplicação de corrente elétrica de baixa intensidade em uma área do cérebro conhecida como córtex pré-frontal dorsolateral direito (DLPFC).

“Temos várias pesquisas nesse sentido, no entanto, não podemos observar como um caso isolado. Ter atitudes honestas não é apenas a estimulação de uma área do cérebro, é uma questão também comportamental. É o que aprendemos ao longo da vida, valores e ideais que adquirimos”, destacou o neurocirurgião José Augusto Lemos.

De acordo com o PhD em Neurocirurgia Walter Fagundes, possivelmente a estimulação feita pelos cientistas suíços deve ter modulado a função da área cerebral do giro do cíngulo subgenual. “Essa região tem conexões importantes especialmente com a região do córtex frontal que interage com outras estruturas e são responsáveis pelas nossas emoções. Penso que o estímulo dessa região, com a sensação de felicidade, pode levar a um comportamento mais honesto”, destacou.

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Dificuldade de ser honesto sempre

Neuropsicóloga Joana Sobreira Girandelli fala “Jeitinhos brasileiros”. Foto: Divulgação

A opinião é dos especialistas, que afirmam que muitas vezes a desonestidade está em um contexto de autopreservação

Se dizer honesto mesmo admitindo atos de desonestidade é uma atitude natural do ser humano, segundos especialistas. Eles defendem que, mesmo sempre buscando pelas atitudes corretas, ser honesto o tempo todo é muito difícil.

A neuropsicóloga Joana Sobreira Girandelli destacou que muitas vezes o cidadão não se dá conta de que está praticando atitudes desonestas. “As pessoas se consideram honestas porque não dão conta de que estão sendo desonestas com atos que já estão acostumadas e acabam enganam a si mesmo”, destacou.

E, de acordo com ela, foi tentado essas justificativas para atos corruptos que o brasileiro criou o famoso “jeitinho brasileiro” de ser. “Para conviver com várias situações do País, o brasileiro acabou criando os jeitinhos, que passa de uma para outro as pequenas omissões e vai se tornando algo natural ou justificável”.

Segundo o psicólogo e palestrante Rossandro Klinjey , o jeitinho brasileiro passa a ser desonesto quando ele infringe a lei e o direito do outro. “Quando a minha vantagem tira o direito do outro, tenho o lado negativo do jeitinho.”

O psicólogo Breno Rosostolato explica que a honestidade tem que ser compreendida dentro de um contexto.

“Temos de entender que a desonestidade, a mentira, às vezes é inerente ao comportamento social, também faz parte das relações. Muitas vezes, está em um contexto de autopreservação”, explicou.

Ele defende que a honestidade não é uma constante e convive lado a lado com atitudes desonestas, que muitas vezes são justificadas para as pessoas continuem se sentindo honestas.

De acordo com o psicólogo Enéas Lara, ser honesto é um desafio.

“É preciso considerar a honestidade um valor e aceitar que nem sempre somos honestos conosco e com o próximo. É um desafio. Ser honesto envolve a percepção sobre si mesmo e implica na escolha de uma atitude coerente. O baixo contato conosco acontece até quando mentimos se perguntam se estamos bem, porque não prestamos atenção na pergunta ou como um mecanismo de defesa.

A psicóloga Gisele Barreto explicou que a desonestidade é contextual. “Você pode virar um desonesto, dependendo da situação, que pode levá-lo a um comportamento ambíguo, no limite entre o certo e o errado.”

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Mudança passa pela escola

Professor Edebrande disse que as escolas não deveriam tolerar a fraude. Foto:
Thiago Coutinho/AT

A sociedade precisa de uma mudança de comportamento para ser mais honesta, é o que afirmam os especialistas. Eles completam ainda que essa mudança deve acontecer por meio da educação. E para isso, as escolas têm um papel importante nessa mudança de comportamento, junto com a família.

“Os valores fundamentais precisam ser passados pela família e pela escola. Quando a família aproveita os pequenos momentos e episódios do dia a dia, surgem as grandes oportunidades para trabalhar esses valores”, destacou a psicóloga Gisele Barreto.

Segundo o professor de Filosofia da Ufes Edebrande Cavalieri a honestidade tem lugar especial na escola. “Por isso, a famosa ‘cola’ é vista negativamente. É uma fraude, uma enganação. Os professores jamais deveriam tolerar a fraude, a cola. Ninguém nasce honesto ou desonesto. A pessoa precisa ser formada honestamente”, destacou.

E as escolas, preocupadas com a formação desses futuros cidadãos, já estão incluindo em seus currículos o aprendizado de valores, como acontece no Colégio Brasileiro de Excelência(Cobe), Colégio Salesiano e Escola Americana de Vitória.

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Políticos desacreditados

Rafael Simões reforça que cidadão deve participar Foto: Divulgação / UVV

O estudo realizado pelo Centro de Pesquisas Rachid Mohamd Chibib, da Faculdade Pio XII, em parceria com o jornal A Tribuna, mostrou que os entrevistados não acreditam na honestidade do povo brasileiro e menos ainda na honestidade dos políticos.

Em meio a cenários de investigação da Lava a Jato, ministros com malas de dinheiro e negociações de propinas, 85,9% acham que brasileiros são corruptos. A porcentagem é ainda maior quando a pergunta é sobre os políticos. Dos entrevistados, 95,7% acreditam que os políticos são corruptos.

“Nós vivemos essa dicotomia: a maioria acha o povo é corrupto, mas se acha individualmente honesto. Isso é uma impossibilidade. Como os fatos têm comprovado recentemente, inúmeros políticos são desonestos, ou se envolveram em práticas desonestas, e devem ser punidos devidamente, mas temos, como cidadãos, que acompanhar a coisa pública, participar dos assuntos públicos, escolher com atenção os políticos que nós elegemos”, comentou o professor da UVV e secretário da ONG Transparência Capixaba, Rafael Simões.

De acordo com ele, combater a corrupção exige um esforço prolongado, que envolve educação, controle, participação e punição. “Envolve, no nível mais básico, a escolha do cidadão em fazer o certo, não deixar que o seu interesse sirva para macular a ética”, destacou o professor.

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Reportagem especial de Lorrany Martins para o jornal A Tribuna do dia 01/10/2017




  • 2 thoughts on “Ser honesto vale a pena?

    1. gladson santos

      companheiro, hoje eu conversei com meu desconhecido psiquiatra, ele me relatou que trabalhou toda sua vida, sem nenhuma ganancia, fazendo o seu trabalho com humildade, seus filhos foram pessoas de sucesso e importantes. a honestidade não é tão importante ou suficiente, temos muitas coisas para fazer, temos de ser honestos e auto suficiente, ser um profissional que produza coisas uteis e satisfação, que saiba tratar as pessoas do corpo, da mente e da alma. ai sim pode ser uma pessoa admirável, um anjo cultivador da força do bem………

      responder
    2. Adriel Batista Correia de Melo

      Já encontrei muitos telefones móveis perdidos.Devolvi todos eles e não quis receber dinheiro.

      Adriel Batista Correia de Melo.

      responder

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